Conto escravidão
Xico Cruz

R$35.00

Título Conto escravidão
Autor  Xico Cruz
apresentação  Leonardo Sakamoto
prefácio  Carmen Bascarán
posfácio Giselle Vianna
capa e projeto gráfico Wellington Souza
foto de capa Sergio Carvalho
ilustrações internas Walison Melo

Ano 2018 1ª edição
Nº de páginas 62
Acabamento brochura | papel pólen bold
Dimensões 16 x 21cm
ISBN 978 85 69577 73 7

Categoria

Descrição

** Este livro foi escrito a partir de depoimentos de trabalhadores/as resgatados/as do trabalho escravo. Todos os contos são fatos reais. Abusos sexuais, extrema exploração, assassinatos e todos os tipos de maus-tratos é a realidade de um país que nunca aboliu a escravidão. **

Trinta dias de duro trabalho braçal, roço de juquira, limpa de pé de cerca, cuidar de animal. Com trinta dias já não éramos mais os mesmos, nem na aparência e nem na quantidade. Não, ninguém foi demitido. Escravo não é demitido. Escravo é morto. Em uma dessas tardes escuras de nuvens amareladas os jagunços levaram o rapaz. Tiros. Silencio. Nunca mais voltou. “Patrão! Preciso mandar dinheiro pra minha família, a mulher ficou em casa sem nada”. Cobrei. Alguns risos de xingamentos, olhares de ofensas, e o aviso de que só depois de 90 dias trabalhados é que veríamos algum dinheiro. Aquilo me subiu labaredas de ódio. Murmurei aos companheiros que fugiríamos, eles consideraram loucura, eu, a única saída. Falavam dos jagunços. “Não tenho medo de homem e aqui não fico mais”. Avisei. “Quem vai, v’ambora”. Este livro foi escrito a partir de depoimentos de trabalhadores/as resgatados/as do trabalho escravo. Todos os contos são fatos reais. Abusos sexuais, extrema exploração, assassinatos e todos os tipos de maus-tratos é a realidade de um país que nunca aboliu a escravidão.

Uma crônica para iniciar os contos
Há um corpo desajeitado no chão, atirado, caído em frente á minha janela, na calçada, perto da minha porta, bem na beirada da rua. Um pouco a mais e estaria no meio da rua. Ás margens de ninguém. Sim! É um corpo morto! Sem vida nenhuma ou suspiro algum e com sangue esfriando. Normal! Digo isso de forma tranquila e observo a cena estática fumando um cigarro. Há algumas horas este corpo falava, esbravejava e xingava alegrias junto ao bando de meninotes esfomeados de maus-hábitos. É rotineiro esse encontro e só hoje me dei conta dessa vulnerabilidade. É perigoso se expor em uma calcada com um bando a conversar abóboras. O tiro saiu de uma arma que não vi, de um homem que não conheci, de uma moto que não sei a placa. Ninguém sabe ou saberá, mesmo sabendo, vendo e reconhecendo. Deixemos isso pra lá. Vamos aos fatos sociológicos desse corpo fumaça, tão jovem e tão cheio de sonhos miúdos.

[continua]

Homens porcos
Moramos em um barraco coberto de palha em baixo de um pé de
manga, é frio à noite e, durante o dia, não faz tanto calor. No canto
do barraco fica o pote e alguns baldes de água, a água é fria também,
tiramos do poço, não é muito limpa, mas dar pra beber, a cor é um
pouco feia, acho lindo é água azul, nunca vi água azul, mas acho
lindo, a que bebemos é barrenta, os outros falam que tem gosto de
lama e dizem que fede muito, mas eu mesmo não reclamo, também
não sinto esse fedor e o gosto é esse mesmo.
Quando anoitece, a gente acende nossas lanternas, compramos aqui
mesmo na fazenda, saiu um pouco caro, mas precisamos delas, já que
não temos lamparina, nem velas, e a noite precisa de luz. Pra não
gastar as pilhas das lanternas vamos dormir bem cedo, as pilhas são
vendidas muito caras também, então só usamos quando realmente é
necessário. A maior parte do tempo, passamos no escuro, não acho
ruim não, vou deitar cedo, não sou de ficar me levantando toda hora
e a noite tem muita cobra.

[continua]

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