anjo voraz
marco aurelio de souza

R$35.00

Título  anjo voraz
Autor  Marco Aurélio de Souza
Ano 2018 1ª edição
Nº de páginas 76
Acabamento brochura | papel pólen bold
Dimensões 14 x 21cm
ISBN 978 85 69577 64 5

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Descrição

Os poemas de Marco Aurélio de Souza enfeixados neste “Anjo Voraz” namoram a prosa. Deste amor medram os longos períodos, as metáforas distendidas, as anáforas que desenham largos círculos em torno de uma imagem, em movimento espiral, o ritmo ditado pela memória pervagante do autor. Mas este é um namoro infiel: o mesmo poeta que se desvela em tom coloquial, envolvendo o leitor em uma cumplicidade generosa, encontra às vezes os lábios mais secos da condensação poética. Trata-se de um movimento de sístoles e diástoles, de larguezas e contrições do eu lírico, em que pulsam seus amores, sua família, móbiles do passado (como a casa da infância), Deus e a impossibilidade da fé, misérias da sociedade atual e, sobretudo, a condição humana, sob a implacabilidade onívora do tempo. Há muito eu não me deparava com poesia assim aberta aos ventos do lirismo, poesia que não esconde em hermetismos a falta de vida, a recusa da morte. O coração de “Anjo Voraz” é um coração exposto. Podemos ver suas veias, seu sangue, podemos senti-lo nas mãos. E pouco a pouco, poema a poema, vamos percebendo, satisfeitos, que sua pulsação aflita e misteriosa é também a nossa.

Marcos Pamplona [texto de orelha]

V
A grande rede tem pressa:
Quer aumentar as vendas do natal.
Picaretas anunciam o progresso
Derrubando as paredes carcomidas
Da pensão-melancolia.

Enquanto o barulho das máquinas
Não alcança sua promessa irascível de futuro
Espanto a lágrima discreta que escorre pardacenta
Contornando as rugas de Suzete
Puta amiga
Cheirando com ela nossa última carreira
Branquinha no mocó de fedentina
:
Danúbio Azul é a Verdade que os monges
E as putas
E os dementes
E os malucos
Meditam num minuto de silêncio.

Das condições do tempo
Um teórico eslavo me alerta
Às condições do nosso tempo
Em uma rede social
:
A opressão esmaga
O ódio se converte numa lei
Refugiados se afogam no cabo
Da boa esperança
Um muro alto nos divide a todos
E a guerra é nada menos que
Iminente.

Confesso sentir um quê de culpa por nascer assim
Com os fundilhos virados para a lua
Na ilha próspera da classe média
Branca, indolente
E subtropical.

Penso em montar um mutirão de consciências pesadas
Para varrer a sujeira que toma conta
Do hodierno mundo capitalista
E sinto mesmo o bater mais forte
Dos bons augúrios
No coração.

Lamentavelmente
Num piscar de olhos a esperança
Se encolhe em meu peito
Sitiada pela dúzia de latinhas
Que tomei
E pelo incenso do meu fumo
Que nubla na alma a nobreza
Do gesto vindouro
Mediante nova e mais urgente constatação
Das condições do nosso tempo
:
No subúrbio do planeta ainda é verão mas
À revelia dos costumes
Aqui na terra dos pinheirais
Um termostato natural descansa preguiçoso
Na casa amena dos dezoito graus celsius –
Novos teóricos pipocam pela rede social e
No interior da geladeira bem munida
Restam ainda seis latinhas de cerveja
Além da culpa adormecida que vai bem
De sobremesa.

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