zona de desconforto
lindevania martins

R$35.00

Título  Zona de desconforto
Autor  Lindevania Martins
Ano 2018 1ª edição
Nº de páginas 124
Acabamento brochura | papel pólen bold
Dimensões 14 x 21cm
ISBN 2 978 85 69577 61 4

Descrição

Aqueles pais, que em casa cultivavam a virulência, na presença daqueles que julgavam ricos ou poderosos, eram curiosamente subservientes, passivos, complacentes, capachos mesmo. Eu observava, admirada, como aplaudiam, quando vinham daqueles, todos os comportamentos que em casa execravam, como repetiam em uníssono eco, quando proferidas por aqueles, todas as palavras que em casa repudiavam.

Ganhei uma bofetada por chamar a atenção daqueles pais para ações tão flagrantemente contraditórias. Logo percebi que batiam em meu rosto porque podiam fazê-lo sem medo de revide e que era por isto que feriam os filhos, que os sufocavam, que os torturavam, quando não podiam fazê-lo aos que verdadeiramente os machucavam, pois, naquele mundinho perverso, nós éramos as vítimas ideais, as que não protestavam, as que não se esquivavam, as que não se rebelavam, as que não matavam.

– trecho  |  conto

Zona de desconforto
Perto dos meus treze anos, uma conhecida de mamãe bateu na nossa porta para contar a ela sobre uma família que morava em São Luís e procurava uma menina para ajudar a cuidar de um bebê. Em troca, a família colocaria a menina na escola e a trataria como filha. De pé ao lado de mamãe, eu acompanhava a conversa com atenção. Até então, a capital era apenas um sonho. São Luís era a cidade onde não me obrigariam a cuidar de crianças choronas, onde todos os dias eu iria para a escola, onde me chamariam pelo meu nome.

Mamãe queria saber mais sobre a dona da casa, o que ela fazia e como era a família. A conhecida de mamãe disse que a família era de um casal com três filhos, duas meninas da minha idade. Disse que a dona da casa era professora, o marido farmacêutico e que era uma família boa. Enquanto olhava nossas paredes de taipa e madeira retorcida, dizia que a família morava numa casa de alvenaria grande e bonita. Mamãe pareceu satisfeita e quis saber se a menina poderia ser eu. A conhecida de mamãe sorriu e disse que não via problemas. Mamãe ficou contente com a ideia de me mandar para a capital porque já tinha filhos demais e não tinha conseguido cuidar de todos sozinha. Eu era a quinta de seis filhos, cinco mulheres e o menino caçula, sendo que todas as filhas mais velhas já estavam em algum outro lugar. Quanto a mim, a melhor parte da história era poder estudar em uma escola de verdade. Mamãe não sabia ler e o que eu sabia tinha aprendido numa escolinha improvisada perto da casa de Dona Zuleide.

[continua]

O Número Perfeito
Mas eu compreendia a inversão que ocorrera e o direito que ela possuía de renegar qualquer tipo de investida minha. Compreendia que Hugo não era qualquer pessoa, senão meu melhor amigo, minha grande chance. Aqueles pensamentos vis poderiam acabar com meus planos, meu projeto de vida. Hugo merecia meu respeito, ainda que pudesse estar sendo descaradamente usado por Mariana para me ferir e através disso fazer com que ela recuperasse algum tipo de amor-próprio. Compreendia que se não fosse assim, e se ela realmente o amasse, que eu deveria me recolher ao meu lugar, sem cobiças, reconhecendo que ele era melhor partido que eu, me rendendo aos mesmos argumentos, embora nunca formulados, que fizeram com que eu a ignorasse. Compreendia, ainda, que talvez a atingisse a mesma emoção do desprezo por si mesma que sempre me atingiu e que isso lhe fizesse querer trocar de corpo, de alma, elegendo Hugo como o remédio necessário para que aquilo não se repetisse mais. E, se tal acontecia, como poderia eu usar de recriminação, censura?

Minha vida inteira foi compreendendo tudo, apesar da aparente incompreensão a Mariana, nos primeiros tempos. Eu, que compreendia tudo sobre essas leis que empurram semelhante a semelhante, que dizem a que lugar pertencem cada homem e mulher e quais gestos lhes convêm, perdi muita coisa na vida por causa dessa compreensão à cuja influência Hugo se furtara por ter escolhido um personagem esperto que só acreditava nas leis inversas, embora tirasse o melhor partido das leis comuns.

Na realidade, embora sempre tenha lutado para isso, nunca cheguei a ser verdadeiramente um sujeito esperto, nem a possuir a flexibilidade de caráter que Hugo possuía. Então, um dia, enfastiado pela compreensão de tudo, decidi que bastava e resolvi não compreender mais nada, agindo por um impulso colérico do qual mais tarde muito viria a me arrepender.

[continua]

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