moedas soltas no bolso
vitor simon

R$35.00

Título  Moedas soltas no bolso
Autor  Vitor Simon
Ano 2018 1ª edição
Nº de páginas 64
Acabamento brochura | papel pólen bold
Dimensões 14 x 21cm
ISBN 978 85 69577 63 8
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Descrição

Vamos até a praça para fumar um cigarro. A praça fica bem em frente à farmácia e tem arbustos podados em forma de animais. Sentamos em um dos bancos e Valter fica durante um longo tempo em silêncio. Por fim, fita-me e pergunta o que eu estou planejando. Respondo que pretendo viajar, ele apenas palita os dentes e recomeça a contar suas histórias. Antes das despedidas, entrego-lhe uma cópia da chave do meu apartamento e lhe peço que tome conta enquanto eu estiver fora. Sei que Valter mora com a mãe e que isso o desagrada. Informo-lhe a data de minha partida e ele pergunta para onde vou.
– Para a floresta – respondo.
Ele ri até ficar vermelho e diz que eu sou mesmo um cara muito engraçado.

– trecho do livro

Fim de mundo
A grama cresceu sobre o pátio desde a última vez que estive aqui. Casas foram derrubadas, outras novas construídas. Permanece de pé a casa do caseiro, que também foi nossa, onde nasceram meus irmãos. Resiste como se fosse o mais importante pilar da nossa história. Também ainda se conserva o jacarandá – digo jacarandá porque de fato não sei que espécie de árvore é, pois nada entendo de botânica. Meupai conhecia as árvores só de olhar para elas. Já dizia de longe o seu nome. Para mim eram todas iguais. Todas eram jacarandás, porque tenho talvez a falsa ideia de que seja uma árvore frondosa (o nome
me passa isso) e que me parece encaixar-se com precisão em qualquer tipo de memória familiar. Lá, diante do jacarandá, foi exatamente onde vi um dos peões despencar da égua e, depois disso, sentar-se sobre as raízes. Sangue brotava de seus ouvidos.

Também ainda sobrevive o velho galpão grande, com suas linhas sinuosas recortando o céu. Hoje um pouco modificado pela reforma que fechou toda a sua parte esquerda, onde ficavam os tratores, e de onde se espalhava o cheiro que para mim até hoje é o mais característico de todo aquele lugar. A granja toda cheirava a óleo diesel. Um cheiro que para qualquer outra pessoa talvez seja repugnante é, para mim, o cheiro mais doce da infância. Indo hoje, a caminho do galpão grande, há o vazio do tanque de óleo diesel, que foi abolido. Eu subia nele, fingindo ser um submarino. O galpão grande era o lugar onde os empregados recebiam as ordens. Era onde eu jogava cartas com eles, que me deixavam ganhar.Era onde as festas eram realizadas, que quase sempre terminavam em briga.

[continua]

Moedas soltas no bolso
Andando pela avenida vazia na madrugada chuvosa, Cláudio pensa em como gastar as moedas que fazem ruído dentro no seu bolso a cada passo. Sabe, no entanto, que não precisa parar de caminhar, se assim o desejar. Mesmo molhado e sozinho, ele pode apenas seguir em frente. E saber disso, de alguma forma, o conforta.
Um táxi encosta ao seu lado, abrindo a janela.
– Tá indo pra onde, magrão?
– Sei lá.
– Entra aí que eu te levo. Tá te arriscando a ser assaltado.
Ele nem tinha pensado nisso.
– Não tenho como pagar a corrida.
– Não esquenta. Tô encerrando o expediente mesmo.
Dentro do táxi há decoração em excesso, o ar ligado no quente extingue aos poucos a possibilidade de respirar e o som sertanejo em alto volume confere ao momento elevados níveis de melancolia. No primeiro sinal vermelho, Cláudio abre a porta sem dizer nada e sai andando. O taxista desce do carro gritando desaforos. Exige que ele volte para dentro do táxi. Onde já se viu, andar por aquelas bandas sozinho, naquela hora? Isso não é coisa de gente com a cabeça no lugar. Um ônibus surge em alta velocidade e não consegue parar a tempo,
arrastando o taxista pelo asfalto molhado. Nisso surgem carros dos dois lados, parando para ver o que aconteceu. Em poucos segundos, a avenida não está mais vazia.

[continua]

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